“A avaliação da conformidade e a qualidade andam de mãos dadas”

Nigel Croft, acadêmico da ABQ, fala sobre a importância da entidade, avaliação da conformidade e modernização do Modelo Regulatório do Inmetro.

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A Associação Brasileira de Avaliação da Conformidade (Abrac) entrevistou o acadêmico da Academia Brasileira da Qualidade (ABQ), Nigel Croft, que comentou sobre a importância da entidade, avaliação da conformidade e modernização do Modelo Regulatório do Inmetro.

Croft é reconhecido como um dos principais especialistas mundiais em gestão de qualidade, sistemas de gestão e avaliação da conformidade. Trabalha neste campo desde 1974, quando iniciou a sua carreira como estagiário na indústria siderúrgica britânica. Desde então, tem atuado em funções executivas e não-executivas em diversas organizações ao redor do mundo, bem como consultor estratégico para grandes empresas multinacionais e entidades como ONUDI (Organização das Nações Unidas para Desenvolvimento Industrial).

Além disso, participa desde 1995 nas atividades da ISO a nível internacional, inicialmente como membro da delegação brasileira (ABNT/CB-25) no comitê técnico TC176 e entre 2010 e 2018 como presidente do Subcomitê TC176/SC2, responsável pelas normas ISO 9001 e ISO 9004.  De 2018 a 2020, coordenou a revisão do Anexo SL das Diretivas da ISO, base para mais de 40 normas internacionais de sistemas de gestão e a partir de abril de 2021 assumiu a presidência do Grupo de Coordenação Técnica da ISO para Normas de Sistemas de Gestão (“JTCG”).

A ABQ é uma organização não governamental e sem fins lucrativos, tendo como membros pessoas experientes e de reconhecida competência profissional adquirida ao longo dos anos – nas universidades, nas empresas e em outras organizações privadas ou públicas – em atividades relacionadas à engenharia da qualidade, à qualidade e sua gestão e à excelência na gestão.

Leia a entrevista na íntegra.

Abrac – Quais são os principais objetivos da Academia Brasileira da Qualidade?

Nigel Croft – Acreditamos que a qualidade é base para o sucesso de um país, das organizações e instituições e da vida digna das pessoas. A Academia tem como objetivo principal melhorar a qualidade da vida do povo brasileiro, através da inserção das práticas da qualidade na cultura da sociedade brasileira. Atualmente, estamos com 55 acadêmicos – são pessoas de vários elos da qualidade, várias experiências, e grandes figuras que ao longo dos anos têm contribuído para o movimento da qualidade no Brasil. A idade mínima dos acadêmicos é de cinquenta e cinco anos, pois o propósito é que os acadêmicos possam devolver um pouco de suas experiencias e conhecimento das metodologias, dos conceitos, das práticas da qualidade em prol do povo brasileiro para melhorar a qualidade de vida do nosso querido e amado País.

Abrac – Como é ser um acadêmico da ABQ e quais são as principais funções?

Nigel Croft – A Academia completará 11 anos agora em novembro. A participação é por convite, feito após a nomeação por um ou mais acadêmicos e a aprovação, em votação sigilosa, por um mínimo de 2/3 dos 50 acadêmicos titulares. Hoje temos alguns acadêmicos que ultrapassaram a idade de 80 anos, que podem optar por continuar ativo ou passar a condição de acadêmicos sêniores, liberando vaga para a entrada de novos acadêmicos titulares.

Atuamos em várias frentes: disseminando conhecimentos, o que pode ser feito mediante lives, entrevistas, artigos, vídeos, palestras, etc., e emitindo posicionamentos. Um dos exemplos é o Manifesto que está no nosso website, onde desenvolvemos posições perante as grandes entidades como, por exemplo, a necessidade de priorizar a educação básica no Brasil. Também estamos contribuindo ativamente, como a Abrac, no processo de atualização da Infraestrutura da Qualidade do Brasil. Temos participado com comentários ativos de toda parte de modernização do Modelo Regulatório do Inmetro. Por fim, atuamos para mudança da cultura pró qualidade no Brasil. Isso demanda mais tempo e se dá por um conjunto de ações que mostre o valor da qualidade para o País. Então é isso, debater e usufruir da experiência de muitas pessoas, e poder de uma forma ou outra influenciar o rumo desse movimento da qualidade tão importante para o Brasil, junto com outras entidades, como a Fundação Nacional da Qualidade, o Movimento Brasil Competitivo (MBC), para unir e fazer uma sinergia dos esforços de todos.

Abrac – A avaliação da conformidade é, em resumo, o meio pelo qual um produto, processo, sistema ou serviço é avaliado e comparado com uma referência, de forma a propiciar um adequado grau de confiança de que o mesmo atende aos requisitos pré-estabelecidos em padrões, normas e regulamentos técnicos. Como avalia a relação de avaliação da conformidade com qualidade?

Nigel Croft – A avaliação da conformidade e a qualidade andam de mãos dadas. Se você analisar a definição formal de qualidade é a habilidade de um conjunto de características em cumprir requisitos. Ao falar da avaliação da conformidade, é necessário perguntar em conformidade com o que? Com quais requisitos? A ISO 9000 define requisitos como necessidades e expectativas que podem ser declaradas – por exemplo numa norma voluntária da ISO ou da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) – implícitas (baseados num conhecimento das expectativas do cliente ou de outros interessados) ou obrigatórias, definidas por exemplo em regulamentos técnicos. Essas características podem ser a resistência de um aço, o grau de cortesia de uma pessoa, o ambiente de um restaurante ou o cumprimento do prazo de entrega. Como já mencionei, as necessidades e expectativas podem ser implícitas, ou seja, quando vou em um hotel não vou pedir roupa de cama limpa, água quente no chuveiro – isso é implícito ou podem ser obrigatórias, dessa maneira, eu espero que vão cumprir com a legislação em vigor de acordo com aquele produto ou serviço que estão oferecendo sem a necessidade de eu explicitar. Alguém tem que avaliar isso – não vou confiar necessariamente na palavra de quem está me fornecendo aquele produto ou serviço. Foi até William Edwards Deming que falou: “em Deus nós confiamos, todos os outros devem trazer dados”.

Acho que este papel da avaliação da conformidade e da qualidade em prol da confiança é de suma importância. Não só na qualidade tradicional, que é a do produto e serviço, mas também da qualidade ampla, ou seja, no ambiente de trabalho, que nós chamamos de saúde e segurança do trabalho, qualidade do meio ambiente, que nós falamos em gestão ambiental, medições de emissões, muito falado hoje em dia, e outros.

Tem muitos elementos dentro da avaliação da conformidade. Envolve os laboratórios fazendo ensaios, pessoas fazendo inspeções, auditorias de sistemas, produtos e pessoas, e a acreditação daquelas entidades que realizam a avaliação da conformidade.

Abrac – Na audiência pública da modernização do Modelo Regulatório do Inmetro, no dia 27 de outubro, a ABQ esteve presente. Na sua opinião, quais serão os benefícios para a área de qualidade com o novo Modelo Regulatório?

Nigel Croft – Quem representa formalmente a Academia é o grande Reinaldo Ferraz. Mas eu tenho acompanhado de perto todo esse processo, desde 2006, quando o acadêmico Jose Augusto Abreu e eu coordenamos uma capacitação de muitas entidades regulamentadoras aqui no Brasil, inclusive o Inmetro, sobre a nova abordagem regulamentar da Europa. Depois levamos uma comissão de mais ou menos trinta pessoas de diversas instituições brasileiras ligadas a infraestrutura da qualidade para visitar a Europa e entender como é o sistema, que é muito mais flexível do que estava e está no Brasil e muitos outros países em desenvolvimento.

O conceito é o seguinte – não se define, não se entra nos miúdos de como fazer um produto em todos os detalhes, porque isso impede a inovação. Se você definir quais são as características essenciais, os requisitos essenciais do produto, seja o brinquedo de uma criança, um capacete de moto, extintor de incêndio, você vai na questão de desempenho.

Temos a presunção da conformidade, que é bem importante na Europa, e de forma geral o que o Brasil está tentando fazer, no caso o Inmetro, é pegar esse modelo europeu e regulamentar as grandes famílias de produtos e depois suportar isso com normas voluntárias.

O que o Inmetro andou fazendo hoje nasceu, na minha opinião, naquela missão de anos atrás. Até então não tinha condição de implementar e agora está implementando. Pessoalmente, fico muito satisfeito da realização, e não é de um ano de trabalho, eu diria de 13 anos de trabalho, cozinhando essas ideias, e com essa implementação do novo modelo do Inmetro. Acho que vai trazer benefícios para todo mundo, em termos de confiança, agilidade, e de poder usufruir e aproveitar das novas tecnologias, digitalização, Indústria 4.0. Acho que isso é um grande passo para frente, vai ser uma grande mudança.

Abrac – Quais são os planos da Academia para 2022?

Nigel Croft – Para 2022, temos vários projetos em andamento, mas tudo vai ser definido na nossa reunião anual que vamos fazer ainda em novembro. Nós temos várias vertentes, claro que na frente de quase tudo é a questão da educação pública básica. Podemos estimular e ajudar, e colocar a educação básica pública com qualidade como prioridade nacional através da implementação da gestão nas escolas. É um trabalho complexo e estamos construindo isso com instituições da área de educação, experiente nesse tema. Também vamos preparar um documento aos presidenciáveis com sugestão de atuação na melhoria da qualidade e gestão dos serviços sob sua responsabilidade e de impacto à sociedade. Temos dentro do nosso manifesto questões de serviço público, e o objetivo final é transformar o Brasil pela qualidade.

Vamos continuar com a nossa disseminação de conhecimentos e troca de experiências, debatendo temas relevantes e visando deixar a ABQ e o Brasil preparados para novos desafios no futuro.

Fonte:Assessoria de Imprensa da Abrac